1 de jun de 2014

Colorindo vazios


Acho que posso definir 'amor' como uma diarreia muito louca. Na verdade, é qualquer sensação que você não define. Ansiedade, fome, enjoo ou vontade de ir no banheiro. Ou tudo junto e ao mesmo tempo. É o tipo de estado de transição entre estar consciente ou plenamente chapado sem nem ter sentido o cheiro de álcool. Só sei que tudo o que você quer fazer é se esconder debaixo de um travesseiro, encolhida, e ponderar sobre qualquer coisa que tenha acontecido. Caçar a causa e tratá-lá como presa. Acaba com isso logo, por favor! Faz churrasco com essa daí antes que eu vire o carvão de hoje!
A água no microondas, o sachê no copo, o açúcar no chá. O chá na boca, o doce na lingua e o amargo sei lá onde. Mas estava por aí, circulando. Um gole alternando com um mini cochilo debaixo das almofadas. Minhas unhas estão roxas, não consigo trabalhar e esqueci onde fica o maldito R do teclado. Tonta, pamonha, besta e frustrada. E, de quebra, vegetando. Um livro de filosofia no colo, o celular na mão esquerda. Ligando os pontos, vendo linhas distorcidas e cores se cruzando. Outra otima definição para o tal amor. Ô, palavrinha chata. Vamos chamar de Jorge que dói menos. Jorge era o que a gente conseguia depois de tanta desordem na casa — ele vinha como uma companhia para artes e acabava colorindo fora das linhas. O chamei como companhia para me ajudar a preencher os vazios, mas nem isso ele conseguiu. Alguns vazios continuavam ali, enquanto o amarelo do meio da página quase continuava na mesa. Eu dizia "caramba, Jorge! Quão difícil pode ser? É só não ultrapassar as margens que fica tudo certinho!" e ele replicava bem grosseiramente com um "se fosse para ser tão perfeitinho, por que não arruma logo uma máquina que faça por você?". E, bem, digamos que o Photoshop realmente era superior ao meu colorido. No meu, mesmo se olhar bem de perto, ainda dá pra ver espaços mínimos "não-preenchíveis" de jeito nenhum. O desenho que colori no Photoshop ficou sim perfeito. A cor uniforme e o traço bem reto. Nenhuma mão humana seria capaz de fazer isso. Era completamente artificial. Mais ainda do que o miojo que estava estocado no meu armário.
E não tem realmente graça exigir o perfeitamente artificial as vezes.
Chamei Jorge de novo na semana seguinte. Mas dessa vez, colorimos só fora das margens. De olhos fechados, sem ter nada em nosso controle. É natural colorir de olhos fechados. É normal preencher mais do que o necessário. E é normal faltar alguns pedaços também. É só uma questão de conseguir trabalhar em cima disso. Jorge gostava daquela técnica abstrata. Era meio chato e estúpido as vezes, e era dono de um intestino terrível e ansiedade crônica,mas, no final das contas, sabia terminar um bom quadro. Quero ver algo mais mecânico superar essa.

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