16 de dez de 2013

"A dor que dói mais"

Conteúdo G

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

Martha Medeiros nasceu no dia 20 de agosto de 1961. É jornalista, escritora, aforista e poetisa brasileira.

4 comentários:

  1. Lagrimas brotaram em meus olhos. Saudade é realmente horrível, mas sentir saudade de quem amamos é pior! Uma dor insuportável que só a gente vê, só a gente sente. Uma dor que não melhora com remédios. Uma dor que deixa hematomas sérios no coração de quem sente. Uma dor que mesmo escondida por trás de um sorriso, está lá, atrapalhando tudo. Uma dor que não passa...

    Beijinhos
    http://ignorantesedoces.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  2. Caramba ontem eu chorava por uma saudade e hoje me deparo com isso incrível mesmo descreveu mt coisa do q sinto parabéns maravilhoso!

    xoxo'

    http://liissamattos.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  3. Mas o pior não sei se é sentir saudades e não ver mais a pessoa, ou quando o amor acaba e você continua vendo a pessoa todo dia, esbarra com ela em todos os lugares. E não é saudade de pessoa, é saudade de quem ela era, ou fingia ser para você...

    http://do-youlove.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  4. "Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença [...]" Falou tudo.
    O que dói também, é você ainda amar uma pessoa, e essa pessoa não sentir nem o terço por você. Ou quem sabe, nunca sentiu....

    blogumnovocomeco.blogspot.com

    ResponderExcluir

© Conspirantes - 2014. Todos os direitos reservados.
Criado por: Amanda Montt.
Tecnologia do Blogger.
imagem-logoimagem-logoimagem-logo