14 de nov de 2013

O pior tipo

Dzabe mozak kaze NE kad srce OPET zeli sve: фотографије

Não vi nenhum relógio, mas jurava que já era madrugada. O céu estava escuro, fora as pequenas luzes vermelhas do festival lá na frente e as brancas dispersas. As estrelas. Gostava de ficar sozinha por ali só olhando para elas. Era quase zen, sabe? Em um segundo, eu viraria uma budista hippie e arrumaria meu infinito. Mas enquanto isso não acontecia, ficava deitada olhando para o tudo e pensando em nada. Mas o nada dá muito em que pensar.
Arregacei as mangas da camisa jeans úmida. Arrepiei. Aquele arrepio de suspeita. Meio paranoica, as vezes. Do tipo 'alguém está me seguindo'. Me inclinei para trás mas senti mãos quentes segurarem meus ombros antes disso. Num movimento rápido, ouvi aquela voz a um centímetro do meu pescoço.
— Perdida, moça?
— Que susto, garoto! — ouvi aquela risada gostosa em resposta. A mesma que assombra meus pesadelos. E de vez em quando, melhora meus sonhos e me faz acordar sorrindo.
— Tem uma galera te procurando lá dentro. O que está fazendo aqui?
— Não tem ninguém me procurando.
— É, mas eu estou. Estava. — Se agachou em minha frente e me encarou. Encarou de verdade. Os olhos meio duros, meio derretidos. Daqueles que escondiam que estavam escondendo algo. Não sabia se encarava de volta ou se olhava meus pés. Estava tão desconcertada que só fiquei olhando para ele, com cara de idiota. Sempre ficava pequena com ele por perto. Odiava isso. — Não respondeu minha pergunta.
— Ah. — Arqueei as sobrancelhas. — Só queria fugir do barulho.
— Mentirosa. — Desafiou. Se levantou e foi andando de costas com um sorriso pretensioso que me fez querer pular em cima dele naquele segundo. Esquece, amiga. Ele é passado, lembra? Aquele passado que dói lembrar e provoca um suspiro carregado de mágoa. No estilo paixão adolescente com coração partido de bônus. Só um amigo. Era tão meu amigo quanto era de qualquer outro. De qualquer outra. De outra qualquer. Mas não dava para evitar. Era tão bom.
Ele era um fardo. Um fardo que eu observava franzindo o cenho. Mas com um sorriso leve no rosto. Pelo menos na minha cabeça era leve. Na realidade, só servia para pessoas sem intimidade me perguntarem porque estava feliz.
Abri a boca mas não conseguia dizer uma palavra. Deus, por que é tão difícil? Talvez para compensar o quão fácil era com qualquer outra pessoa.
Se bem que só é difícil porque ele insiste. E eu também. Insistimos em coisas opostas sabendo que nenhuma delas vai funcionar. Nem em um ano, nem em dois. E nenhum de nós vai colaborar para qualquer coisa acontecer. Ninguém se importa. Ele provavelmente menos ainda.
— Você é um livro raro, menina. — Ofereceu a mão.
Era tão simples. Virar de costas. Avançar alguns passos para longe. Não precisava nem me despedir. Mas de repente me senti a pessoa mais pesada do mundo. Atraída pelo ímã mais errado possível.
"Dane-se, só atinjo problemas mesmo". E corri. A grama estava molhada e os regadores automáticos, ligados. Fiz do meu trajeto toda a rota 66. Passei por ele, rápida e desajeitada, e escorreguei umas quinze vezes. Estava chorando. De raiva, de prazer, de rancor. Mas tirei esse exato momento para chamar de meu, e tentar ignorar qualquer benefício da dúvida.
Eu sei o que está pensando. Qualquer dia eu tomo jeito. Mas hoje não.

Um comentário:

  1. Adorei o texto,se resumi no que eu me sinto com ele.

    Beiijos Tati


    http://depoisdodomingo.blogspot.com.br/

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